sábado, 30 de janeiro de 2010

Jornalistas acreditam que blogs podem pautar a imprensa

Izabela Vasconcelos, de São Paulo

Notícias exclusivas e assuntos diferenciados postados em blogs podem pautar a grande imprensa. É o que os jornalistas reunidos no painel "Jornalismo na rede", na Campus Party, acreditam. Um exemplo é o PEbodycount, blog sobre segurança público, mantido pelo jornalista Eduardo Machado e sua equipe, que retrata os índices de violência em Pernambuco. A página já chegou a pautar veículos e programas como Le Monde, Los Angeles Times, Profissão Repórter e Fantástico.

O blog apresenta números de homicídios e detalhes dos crimes que são atualizados diariamente. "A força disso é que quando o governo dizia que tinha tido um dia tranquilo, ou que a violência estava diminuindo, nós tínhamos esses dados para confrontar”, explica Machado.

O jornalista, que também é repórter do Jornal do Commercio de Pernambuco, conta que já rebateu uma informação oficial, de que uma das mortes registradas no estado teria sido causada por um atropelamento, saindo assim dos índices de criminalidade. Na realidade, os dados do blog, obtidos por fontes confiáveis, afirmavam que a pessoa havia sido morta a tiros. Para confrontar a informação oficial, os blogueiros postaram o texto “Atropelado por três tiros”, que gerou grande repercussão.

Para manter o blog, Machado conta com mais três profissionais na equipe e apoio da Associação do Ministério Público de Pernambuco (AMPE), que oferece R$ 1,5 mil de orçamento mensal para a manutenção da página.

Caminhos alternativos
Sem encontrar espaço nos grandes veículos ou patrocínio, muitos jornalistas optam por criar páginas independentes, como é o caso de Paulo Fehlauer, do blog garapa.org, coletivo multimídia, e André Deak, que mantém, ao lado de outros profissionais, o Haiti.org.br. No caso do portal sobre o Haiti, que é atualizado com informações gerais sobre o país, os jornalistas pretendem levantar uma verba para viajarem até o Haiti para cobrir o país de perto. Outra ideia é uma exposição com o trabalho dos principais fotógrafos que atuaram no Haiti.

Em todas essas investidas, os jornalistas não sabiam se teriam algum retorno ou não. “Nós sempre fizemos as coisas sem saber qual seria o retorno financeiro disso”, diz Fehlauer.

Nos blogs e sites alternativos, os profissionais acreditam que conseguem fazer o tipo de jornalismo que pretendem e investir nas reportagens multimídias, um grande diferencial. Deak só não entende porque os veículos brasileiros se afastam desse tipo de trabalho. “Os jornais do Brasil não valorizam a reportagem multimídia. É uma cegueira dos chefes de redação”.

Apesar de concordarem que o bom jornalismo custa caro, os profissionais criticam a cobrança de conteúdo na web. “Cobrar pelo conteúdo na internet é a vanguarda do atraso”, contesta Deak.

Exercício do jornalismo
Para exercer a profissão de jornalista, os palestrantes defenderam o fim da obrigatoriedade do diploma. Para eles, a faculdade é importante, mas não deve ser uma exigência para fazer jornalismo.

“Os melhores sites de economia são feitos por economistas. A faculdade é importante, mas é como no caso de publicidade, que é um curso aberto”, defendeu Marcelo Soares, jornalista profissional que escreve para o blog E você com isso?, da MTV.

Deak também é da mesma opinião. ”Os blogs nos mostraram que existe vida inteligente fora das redações”.

Maurício Stycer concorda e compara o trabalho de um blogueiro a de um jornalista. “Existem coisas que valem para qualquer mídia, como a apuração. São os princípios do bom jornalismo. A ideia do blog como ferramenta jornalística tem me fascinado”, declara.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Mídia e FSM: uma novela em 10 capítulos

Michelle Prazeres - Observatório do Direito à Comunicação
29.01.2010

Mais uma edição do Fórum Social Mundial. Mais edições de jornais e revistas míopes. 10 anos depois, era de se esperar que a mídia conseguisse sair do seu cômodo lugar de simplificadora da realidade e compreendesse a complexidade do FSM? Não. Ainda bem, porque assim, não nos frustramos.


Dia 27 de janeiro, acordei para mais um dia de atividades do FSM Grande Porto Alegre. Depois do café, acompanhei a edição do jornal Bom dia Brasil, da Rede Globo. A manchete sobre o FSM é que o evento vive uma espécie de crise de identidade, esvaziado e sem propostas concretas.

Ora, o objetivo do FSM - nestes dez anos - foi construir um contraponto à visão de que a política é sinônimo de desenvolvimento econômico (numa menção direta ao Fórum de Davos), dar visibilidade às lutas e diversos movimentos e, por fim, articular estas lutas, promovendo uma sinergia, uma espécie de caldeirão, um espaço de processamento. Esta complexidade a mídia comercial nunca compreendeu. E sempre fez críticas ao FSM como espaço de “muita teoria e pouca prática”. Claro, um espaço que não se encaixa nas categorias cartesianas e que tem uma profundidade que o raso olhar da mídia privada não consegue alcançar. Um espaço da multiplicidade, da diversidade, da alteridade. Valores difíceis de a mídia estreita entender.

Um segundo ponto, em relação ao esvaziamento do evento, é - no mínimo - falta de informação. Este ano, ainda que Porto Alegre tenha concentrado um grande volume de atividades, o Fórum é descentralizado , e está acontecendo em mais de 27 grandes mobilizações ao redor do mundo. Ou seja, não se trata de um esvaziamento. Pelo contrário. O encontro em Porto Alegre, inclusive, superou as expectativas em termos de volume de público.

Por fim, durante o FSM, tive a oportunidade de acompanhar a cobertura da mídia gaúcha ao encontro na Região Metropolitana de Porto Alegre. Um olhar panorâmico pode nos fazer pensar que a mídia local é uma rara exceção. A cobertura é rica, diversa, aprofundada em muitos casos, plural, no sentido das vozes que a protagonizam. Sim, é fato que a cobertura é um exemplo do que poderia serem todos os demais meios. Mas é preciso ponderar que a mídia local tem um interesse direto na promoção de um evento que projetou Porto Alegre para o mundo e que traz inegavelmente uma movimentação econômica para a cidade.

Esta novela começou há dez anos. E a relação do FSM com a mídia comercial nunca terá um final feliz. Afinal de contas, faz tempo que os meios de comunicação deixaram de ser porta-vozes da elite, do poder e do mercado. Hoje, as empresas de comunicação integram este poder, se não são um dos maiores na correlação de forças global. Portanto, se o Fórum é um movimento contra-hegemônico, é um movimento “inimigo” da grande mídia.

Felizmente, o FSM vem amadurecendo - e muito - a sua concepção e comunicação e integrando esta dimensão à agenda do novo ciclo que se inicia rumo a Dakar, no ano que vem. Em 10 anos, de instrumento de divulgação, a comunicação avançou para eixo de debate e em seguida para direito a ser reivindicado pelos movimentos do campo do FSM (veja também: A comunicação nos dez anos do FSM).

Na mesa sobre sustentabilidade do Seminário Internacional que foi promovido em Porto Alegre estes cinco dias, foi bom ouvir que a comunicação deve ser encarada antes de tudo como um direito, mas também como um questão do entorno, da esfera pública, do ambiente que nos cerca. E que a revolução de que precisamos é fortemente marcada por uma dimensão comunicacional-cultural.

Se, cada vez mais, a plataforma FSM incorpora as questões por uma comunicação democrática e suas práticas internas mostram que as comunicações públicas, livres e alternativas são possíveis, até quando a grande mídia conseguirá condenar o Fórum a retaliações, omissões e invisibilidades? Como dizia a faixa das mulheres na marcha de abertura do FSM Grande Porto Alegre, “seguiremos em marcha até que todas estejamos livres”. Neste caso, até que todos/as tenhamos voz.

* Jornalista, mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e doutoranda em Educação (FE-USP). Integrante do Intervozes e assessora de comunicação da ONG Ação Educativa. Autora do livro “Um Mundo de Mídia” (Ed. Global).

Comitê acusa Sabesp de ignorar alerta sobre níveis

Deu no Estadão de 29 de janeiro de 2009
Órgão de gestão do Sistema Cantareira diz ter pedido à estatal que fizesse descargas das represas em outubro
fonte: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100129/not_imp503413,0.php

O Comitê de Bacias dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (CB-PCJ), responsável pela gestão do Sistema Cantareira, afirma ter comunicado a Sabesp em 2 de outubro do ano passado sobre a necessidade de fazer descargas nos reservatórios. A reunião aconteceu em Capivari e os alertas foram registrados em ata e áudio, segundo o comitê, que gerencia o sistema e é ligado à Agência Nacional das Águas (ANA). Os técnicos da Câmara de Monitoramento Hidrológico do órgão chegaram à conclusão de que as comportas deveriam liberar água para os Rios Atibaia e Jaguari quando as barragens chegaram a 81%.

Com a capacidade de armazenamento esgotada, os dois reservatórios transbordaram na segunda-feira. Inundações causaram a saída de suas casas de milhares de pessoas de Atibaia, Piracaia, Bom Jesus dos Perdões e Bragança Paulista.

Desde setembro de 2004, técnicos fazem o monitoramento eletrônico e em tempo real do volume. O comitê é formado por ambientalistas, prefeitos e secretários de 60 municípios paulistas e 4 mineiros. No fim de setembro, foi feito o primeiro alerta à Sabesp, indicando que a previsão de chuvas para o verão deveria ser levada em conta. Em setembro, o sistema estava em 60% da capacidade.

Após as chuvas do início de outubro, os técnicos emitiram aos funcionários da Sabesp parecer favorável à abertura gradual das comportas. O nível de armazenamento chegara a 70%. "Mas eles (Sabesp) optaram por seguir as regras de seus próprios técnicos", afirma o coordenador do comitê, Astor Dias de Andrade.

A Sabesp argumenta que até o início de dezembro a situação era de "normalidade" e afirma não ter recebido o alerta. "Não recebi nenhum documento desse rapaz, nunca vi uma assinatura. Ele devia se preparar antes de falar besteira e fazer alarmismo", disse Paulo Massato, diretor metropolitano da Sabesp. "Em outubro e novembro, o nível do sistema estava em 50%, só foi começar a encher em dezembro. Como íamos descarregar água? Temos a responsabilidade de garantir o abastecimento de 22 milhões de pessoas." Reportagem publicada pelo Estado no dia 5 de novembro, indicava que o sistema estava em 80,6% de sua capacidade.

A situação do Cantareira será discutida em reunião hoje em Brasília, na ANA. "Queremos nos colocar à disposição para ajudar. Por isso, convocamos a Sabesp e o Daee (Departamento de Águas e Energia do Estado) para conversar", disse o presidente da agência, Vicente Andreu Guillo.

NOVA VAZÃO
Ontem, a Sabesp reduziu a vazão para os rios da Bacia do Piracicaba de 79 m³/s para 77 m³/s. Com novas chuvas à tarde, a água em áreas alagadas não baixou. Em Atibaia e Bragança, 1.200 famílias já foram removidas; outras 176 saíram de casa em Pedreira, Morungaba e Amparo

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